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24.10.09

Jacques Prévert (França)

         
    



Óleo de Isabel Mendes Ferreira
    
    
     



O Pintor, o pássaro e a gaiola


Primeiro pinte uma gaiola com a porta aberta
Depois pinte
algo gracioso,
algo simples,
algo bonito
algo útil
para o pássaro.
Então encoste a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta.
Esconda-se atrás da árvore
sem falar
sem se mover...
Às vezes o pássaro aparece logo
mas ele pode demorar muitos anos
antes de se decidir.
Não desanime.
Espere.
Espere durante anos se necessário.
A rapidez ou a lentidão do pássaro
não influi no bom resultado do quadro.
Quando o pássaro aparecer
se ele aparecer
observe no mais profundo silêncio
até o pássaro entrar na gaiola.
E quando ele entrar
delicadamente feche a porta com o pincel.
Então
apague uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar
na plumagem do pássaro.
Em seguida pinte a árvore
escolhendo o mais bonito dos seus galhos
para o pássaro.
Pinte também a folhagem verde
e o frescor do vento
o dourado do sol
e a algazarra das criaturas na relva
sob o calor do verão.
E então espere até que o pássaro decida cantar.
Se o pássaro não cantar
é um mau sinal,
um sinal de que a pintura está ruim.
Mas se ele cantar é um bom sinal,
um sinal de que você pode assinar.
Então, com muita delicadeza,
você arranca uma das penas do pássaro
e escreve o seu nome num canto do quadro.
    
    
    

13.10.09

Maria Amaral (Portugal)



    



   
    

   
     

    


O que ata ou desata a linha vaga e breve, intensa e clara ideia do que é ou deveria ser o silêncio?

O que é exactamente a pintura, a “habitabilidade gestual”, o talento, a Arte em si mesma?

Em que margem desassossegada se instalam os ritmos certos do que é e do que parece ser? Ou se quiserem, do que é aparência intencional e do que foge à retórica estilística?

Perguntas às quais nenhuma paleta responde. Perguntas que só fazem sentido enquanto isso mesmo: interrogações sobre um caminho vivido sempre a sós. Como ostensiva e serenamente faz Maria Amaral.

Uma Pintora que troca o lugar do silêncio, que abre as portas da solidão, que investe no rumor do azul quase pálido, que nos inquieta. Uma Pintura onde o espaço não tem mancha, onde as manchas invadem o nosso espaço de sonhar. E sempre o silêncio a bater nas arestas, e sempre um horizonte afogado de cinzas que nos apertam, de rosados estrangulados a quererem saltar, ora de um Alentejo ora de uma cosmopolita Nova Iorque.

Maria Amaral não facilita, não se desvenda em aventuras cromáticas fortuitas, não descura a forma, não aveluda as esquinas.

Maria Amaral trata com secreto pudor a dor maior do silêncio. E nele nos perdemos de tanto procurar o que existe de comum entre lugares tão separados quanto colados, e afinal, o que nos aproxima é uma arte pessoalíssima: a Arte de pintar o invisível, a Arte de arrebatar o ventre da cal à cal do silêncio.

Nesta Pintora, que não se mede por “modismos”, mede-se a distância. A terrível e fascinante distância do amor. Maria Amaral anda à solta por dentro das raízes. Deixemo-nos pois guiar nesta doce invisibilidade onde ainda nos é permitido imaginar a tela de um amanhecer. Que importa o lugar? Ela devolve-nos à pureza de um tempo sem limites!

Isabel Mendes Ferreira / Galeria JE 1997

   

2.10.09

Mena Brito (Portugal)

   
    


    
      


   
    


    
    
"Pois é, é mesmo assim: marítima, marinha, águas leves e dóceis por dentro do tecido de pele; esta é a nova aposta das renovadas pinturas de Mena Brito. E é com vigor e austeridade - musculosa força que se vence "aquariamente" - que um rosto, um corpo, vários sinais da infância, nos prende ao labirinto das águas, ao recato de uma estória desejada..."

Isabel Mendes Ferreira / 1998
     
     
    

26.9.09

Isabel Mendes Ferreira (Portugal)

    
         



    
    

Técnica mista de óleo com acrílico e pastel de óleo


Nota: Livro de Joaquim Pessoa ilustrado com óleos de Isabel Mendes Ferreira.
Fotos gentilmente cedidas pela amiga Maresias.